Literatura Fantástica



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    Poesias selecionadas

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    joaofelintoneto

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    Poesias selecionadas

    Mensagem por joaofelintoneto em Sab Jan 01, 2011 12:10 pm

    Biografia -

    No dia 04 de outubro de 1966, nasce João Felinto Neto, em Apodi, Rio Grande do Norte. Em 1969, parte com sua família para Tabuleiro do Norte no Ceará. No mesmo ano passa a residir em Limoeiro do Norte, sua pátria emotiva e ponto de partida de uma fase migratória que duraria toda a sua infância, e o levaria até Santa Isabel/PA (1971), Limoeiro do Norte/CE (1973), e Mossoró/RN (1974), onde ingressa, no Instituto Dom João Costa no ano de 1975. Retorna novamente a Limoeiro do Norte (1977), onde permanece até 1982, ano em que conclui o 1º grau no Liceu de Artes e Ofícios.
    Retorna definitivamente, com sua família à cidade de Mossoró. Conclui em 1985 o 2º grau na Escola Estadual Prof. Abel Freire Coelho.
    Em 1986 ingressa no serviço público, como técnico de biodiagnóstico do Hospital Regional Tancredo Neves, atual Tarcísio Maia.
    Conclui o curso de Ciências Econômicas, pela UERN, em 1991.
    Somente aos 34 anos, começa escrever e catalogar poemas e crônicas. Até então seu mundo literário se resumia à leitura e ao pensamento.



    POESIAS SELECIONADAS



    APELO À MISÉRIA

    Quem me dera, miséria,
    eu fosse parte
    de um baluarte de sonho e de quimera.
    Pela boca mantém-se assim o povo,
    a lavagem é a comida que a si, dera.
    Na vergonha de reconhecer-se porco,
    ter o rosto metido na sujeira,
    enlameado atrás de uma porteira
    seu anseio é mantido na espera.

    Quem me dera, miséria,
    eu me calasse
    e ocultasse o meu rosto na janela.
    Meus princípios mantêm-me assim exposto.
    Sou mau gosto travado na goela.
    Quem engole as palavras que eu digo
    traz de volta a vontade de lutar,
    elas tocam a ferida no umbigo
    que o conformismo já ia cicatrizar.

    Quem me dera, miséria,
    quem me dera,
    que de ti eu pudesse me livrar.






    PERSONAGENS INFANTIS

    Será que o lobo é tão mal.
    O lobo ama também.
    Ele protege os filhotes que tem.
    Caçar, para ele é natural.

    A chapeuzinho, talvez,
    quando crescer seja outra.
    Se torne uma megera
    que não gosta de criança
    e perca toda a esperança
    de voltar ao que era.

    O caçador, o herói tão valente
    que salvou a vovozinha,
    costuma matar friamente a fêmea,
    deixando a cria sozinha.
    Ele acabou sendo preso
    por caçar ilegalmente.

    A vovozinha morreu.
    Pois, a idade a levou.
    Mas, quantas vezes brigou com a vizinha da frente.
    Isso prova que a bondade e a maldade,
    na verdade, são apenas uma história diferente.






    O POEMA QUE EU DEIXEI DE ESCREVER

    O poema que eu deixei de escrever,
    Falaria de você,
    De nosso tempo,
    De angústia, de tormento,
    De alegria e de prazer.
    Iria contradizer
    Cada palavra
    Que as nossas falas
    Tinham pouco a dizer.

    O poema que eu deixei de escrever,
    Seria na verdade,
    Uma ameaça.
    Calaria minha boca,
    Qual mordaça.
    Não seria uma desgraça,
    Por não ser.
    Os meus versos,
    Talvez fossem sem querer,
    Uma ofensa
    A sua crença,
    Que eu acreditava
    Ter.

    O poema que eu deixei de escrever,
    Não seria
    De valia.
    Sem valia,
    O deixei de escrever.






    SEPULTAMENTO

    Os meus olhos pregados
    no infinito
    como os pregos nas tábuas
    cravejados,
    e de pontas viradas,
    redobrados,
    sustentados e fixos
    numa curva.
    No aconchego da madeira macia,
    minhas costas
    nos ossos da bacia
    consolam meu corpo
    tão curvado.
    Pelo tempo que tenho acumulado,
    a ferrugem do mundo
    me comeu,
    e a tampa que pregam
    me prendeu
    para sempre num rito consumado.
    Por debaixo da terra
    condenado
    a ser parte da mesma
    e não ser eu.






    CANTO DE SEREIA

    Como um canto de sereia
    de belíssima harmonia,
    letra correta, verdadeira poesia
    e melodia
    que eterniza nossa alma.
    Por onde anda
    a sereia encantada
    nas profundezas desse mar de ignorância?
    Letra incorreta com falta de concordância
    e melodia
    que nos faz perder a calma.
    Só na lembrança,
    o teu canto nos enleva
    na emoção que tua voz nos faz sentir
    e na saudade, o nosso coração desperta
    pra realidade,
    não há nada mais pra ouvir.






    PEDESTAL DE BARRO

    Revogo silêncio
    ante palavra e voz.
    Reato os nós
    que me prendem ao medo.
    Reavivo memórias
    em busca de segredos
    que já não interessam mais.
    Reclamo por paz
    em meio a intensa guerra.
    Replanto a erva
    que não nasce mais.
    Relato as dores
    de males e fome.
    Repito o meu nome,
    antes de dormir.
    Reato os laços
    que me prendem aqui,
    ao pedestal de barro.






    TORRE DE BABEL

    O juiz do supremo,
    Jeová,
    se irrita e sai do sério,
    quando seu filho Jesus
    vai à noite, ao cemitério.

    No boteco do Davi,
    onde quem manda
    é o Golias,
    não há funda,
    quem afunda
    na cachaça, é o Isaías.

    No salão do senhor Sansão,
    quem faz o cabelo
    é sua mulher Dalila.

    As mulheres de Salomão,
    o cafetão lá da vila,
    choram e sentem solidão
    quando estão de barriga.

    Lúcifer anda arrasado,
    o seu mundo virou trevas,
    por ter visto abraçados,
    Adão e a senhora Eva.

    Noé, o velho barqueiro,
    não gosta de animais.
    No entanto, adora um peixe-frito
    no barzinho lá do cais.

    Essa torre de Babel
    é o mundo em que vivemos,
    onde não há inocência.
    Se algum nome ou fato ofender,
    é mera coincidência.






    A MULHER DA MINHA VIDA

    A mulher da minha vida,
    Sempre é lida em meus versos,
    De uma forma ou de outra.
    É a sua voz que ecoa
    Reclamando meu regresso.
    É bem mais que uma amante,
    Que uma amiga e companheira.
    Necessária como a fonte
    No deserto de areia.
    A mulher da minha vida,
    Entre linhas abstratas,
    Põe em mim, doces palavras
    E expressão de alegria.
    A resumo em poesia,
    Tal qual em cartas,
    A saudade que nos mata
    Se envia.
    A mulher da minha vida
    É a graça
    Que um devoto em desgraça,
    Alcançaria.






    O LABIRINTO

    Pelas ruas infinitas,
    Não encontro meu destino.
    Endereço repentino;
    Então, me pára.
    Não é nada;
    Sigo em frente, o meu caminho.

    A mim mesmo, ainda minto:
    - Logo chegarei em casa.

    Em calçadas,
    Eu percorro o labirinto
    (Cruzamentos, sinais verdes e paradas).

    O suor não pára o tempo;
    Lágrimas, enxuga o vento;
    E um triste pensamento
    Não se afasta.

    A cidade, assim, se fecha em semelhança.
    A lembrança,
    À realidade, não se adapta.
    Eu confundo o momento
    E me perco no silêncio
    De um triste monumento
    Que me agrada.

    Minha calma é necessária
    Para espantar o medo,
    Desvendar todo o segredo
    Que o labirinto encerra.
    Os meus pés seguem por terra,
    Minha alma por promessa,
    O meu corpo por saudade.
    Edifícios, tais quais pedras,
    Alicerçam a cidade;
    Conduzindo minha mocidade
    Eterna,
    De encontro ao passado.
    Eu me torno um condenado
    Num presente adulterado,
    Que me enterra.

    Observo as vidraças
    Das janelas,
    Onde o sol ofusca a vista
    Com a luz que é minha guia
    Na escuridão tardia
    Do passado.

    Cada praça
    Me congraça,
    Tal um templo
    Erigido como um marco à memória.
    Cada uma conta a história
    De seu tempo,
    De sorriso e sofrimento,
    De conquistas e derrotas.

    Novamente, me encontro sem saída,
    Apesar de tanta via planejada.
    Já não reconheço nada
    Do que havia,
    Já não reconheço nada.

    Alimento meu silêncio,
    O tempo passa,
    Onde pombos batem asas
    Sem voar.
    Não consigo encontrar
    O meu caminho;
    O meu ninho
    Não encontro em meu lugar.
    Continuo a me enganar,
    Ainda minto,
    Preso a esse labirinto
    A me fechar.






    À DERIVA

    Posso até perder o brilho dos meus olhos,
    Mas jamais, deixar de ver tanta tristeza.
    No esbanjar de pratos sobre minha mesa,
    Vejo a fome refletida nos teus olhos.

    O que faço se estou preso ao sistema
    Onde a indiferença
    Sobrepõe a caridade,
    Onde a verdade
    É varrida
    Pra debaixo da mentira
    E onde a vida
    É um barco à deriva
    Sem ações de piedade?






    UM POUCO MAIS

    Percebo
    A minha vida esvaindo-se entre meus dedos
    Em minha mão aberta
    A dar adeus ao mundo
    Pela janela.
    A minha juventude
    Em quietude eterna,
    Silencia os meus dias.
    As velhas alegrias
    São lembranças tristes.
    Os sonhos não resistem
    Aos carinhos da morte.
    E que meu sono suporte
    Os meus pesadelos,
    Já que meus apelos
    Ao que me resta de força
    Não me sustenta.
    Talvez, o mundo não entenda
    Esses meus ais.
    Não tenho medo de morrer.
    Eu só queria era viver
    Um pouco mais.






    O GRANDE DIA

    Ai de nós se não fosse o profeta
    Para converter o nosso coração.
    Do contrário, Deus feriria a terra
    Com terrível maldição.

    Com o Senhor não há perdão.
    Seu grande e terrível dia
    Não será de alegria
    E sim de destruição.

    O poder de sua mão
    É extremamente acintoso.
    Deus é um ser ambicioso,
    Quer de todos,
    Atenção.

    Não importa a condição,
    Será imposto
    Sofrimento e desgosto
    Por qualquer contravenção.

    Deus não quer nos dá lição,
    Quer aniquilar a todos
    Pelo caráter odioso
    Que passou à criação.






    EPITÁFIO XIV

    Ela se aproxima
    Sorrateira e linda,
    Com seu manto escuro,
    Sua mão suada.
    Não nos pede nada,
    Mas nos toma tudo.
    Deixa então, de luto,
    A pessoa amada.

    Ela não se importa
    Com aquele que fica.
    Pois só se dedica
    Ao que se despede.
    Sorrateira, impede
    Que a gente viva.
    E sutil se infiltra
    Sob nossa pele.

    Ela só se afasta
    Quando mata a alma
    E deixa o corpo inerte.






    ETERNA SOLIDÃO

    O que eu tive na vida
    Além da data esquecida,
    Da dor no peito, contida,
    E da perdida ilusão?

    O que mantenho na mão,
    Já na forma cadavérica,
    Senão,
    A luta sem trégua
    Com os germes que a terra
    Colocou em meu caixão?

    Os meus feitos,
    Foram em vão.
    Meus defeitos,
    Exaltados.
    Não sou de Deus nem do Diabo.
    Sou um louco condenado
    A eterna solidão.






    ESPANTALHO MORIBUNDO

    Minha alma sempre está
    Num silêncio tão profundo,
    Que eu chego a duvidar
    Que ainda estou no mundo.

    Espantalho moribundo,
    Onde a morte vem pousar.
    Talvez para lhe falar:
    Sinto muito! Sinto muito!

    Num milésimo de segundo,
    Volta o corpo a respirar.
    Espantalho vagabundo,
    Fecha os braços para o mar,
    Abre os olhos para o mundo.






    FRUTO SEM CASCA

    Espalhando letras
    Sobre velhas páginas,
    Semeei palavras
    Que insatisfeitas
    Deram-me em colheita
    Uma grande safra
    De um fruto sem casca,
    A minha tristeza.

    Uma fruta fresca,
    Presa pela boca
    Em que uma ou outra
    Tenta mordiscar,
    Murcha sem parar;
    Se tornando feia,
    Seca na areia
    Quando o vento dá.

    Versos pelo ar,
    Lágrimas e poeira,
    Solidão na mesa
    Onde o fruto está
    Exposto, sem par,
    Sem mostrar beleza,
    É minha tristeza
    A me alimentar.






    HOMENS DE FUMAÇA

    No arrastar de minhas sandálias
    Pela casa,
    Tenho as lembranças arranhadas
    E esquecidas.
    Por onde andam as conversas conduzidas
    Pelos homens de fumaça?

    Se desfizeram com o tempo,
    Nas costas de um tênue vento,
    Pela janela escancarada.

    O velho barco na distância, ainda aguarda
    Pela tripulação dispersa,
    Numa espera
    Que parece eternizada.

    Em meio a tralhas,
    Depuseram suas velas.
    Em meio a elas,
    O seu capitão se apaga.






    O FRACASSO

    Eu sei que a vida me leva em trapos.
    Caldeirões de barro
    De bruxos modernos.
    Favelas de inferno,
    Diversos buracos.

    São armas de ferro.
    São balas de aço.
    Sou eu, o fracasso
    De um programa sem sucesso.

    Eu sei que a morte me olha de perto;
    Que chego a sentir o seu frio abraço.
    Eu fumo, eu prego
    Minha mão no maço
    De notas sem eco.

    São barras de ferro.
    Algemas de aço.
    Eu sei que sou o fracasso
    De um programa sem sucesso.

    Eu sei que caminham lado a lado,
    O errado e o certo,
    A ira de Deus
    E a fama do diabo,
    Senhores e servos,
    Patrões e empregados,
    Progresso e atraso.

    São os mãos-de-ferro
    Em torres de aço.
    Sendo eu, o fracasso
    De um programa sem sucesso.






    OLHOS DE AZULÃO

    O que busca essa mulher
    Pela qual minto,
    Senão
    A mesma solidão
    Que sinto
    Quando longe de seus olhos de azulão?

    Os mesmos olhos
    Que me olham da gaiola
    Quando eu abro a porta
    E eles vêem a imensidão.






    SE FOSSEM SÃOS

    A rima
    É mera aflição
    Dos versos que me espelham
    Naquilo que são.

    De forma nenhuma dirão
    Do que são feitos.

    Meus versos
    Seriam perfeitos
    Se fossem sãos.
    Mas nada são,
    Senão
    Defeitos.






    QUANDO CHORO

    Onde andam os meus olhos
    Quando choro,
    Se não consigo encontrar
    As minhas lágrimas?
    Nas migalhas,
    Além de meus remorsos?
    Nos meus ossos,
    Aquém de minha alma?






    A FANTASIA

    Amo você
    Com o mesmo ardor da juventude,
    Na quietude
    De minha atual idade.
    Amo-a na ausência
    Como num dia de saudade,
    Detenho-me a cada ínfima lembrança,
    Com a mesma paz
    Que traz
    Aquela esperança
    Após uma guerra.
    Amo-a em terra
    Com a cabeça pelas nuvens.
    Amo atitudes
    Que jamais seriam minhas,
    Como entre linhas,
    Leio uma poesia.
    Amo como se ama o alvorecer
    De cada dia,
    Como o sorriso
    Na inocente alegria
    De um bebê.
    E ter você,
    Ainda parece utopia.
    Mas, quis a vida
    Que eu vivesse a fantasia
    De meu ser,
    Que é para sempre,
    Você.




    MINHA GERAÇÃO

    Essa amargura
    Que me faz um homem rude,
    É mera atitude
    De defesa.
    Odeio a pobreza
    Que aos pés de Deus se ilude;
    Enquanto a juventude,
    Nada almeja.
    Desprezo a mania de grandeza
    Que o rico tem com tudo.
    Não sou um carrancudo
    Por frieza;
    Somente faço uso
    Da tristeza
    De um sisudo,
    Por ser fruto
    De uma geração que aceita.






    SONETO DA VITRINE
    (Sombras & espelhos)

    A vidraça estilhaçada,
    Não desfaz a minha imagem,
    Não subtrai da cidade,
    A luz do sol ofuscada.
    De pé, fiquei na calçada
    Com minha mão estendida.
    Exorcizei minha vida
    Na pedra que arremessara.
    Por um instante, escutara
    O som de ossos quebrados
    Da montra fragmentada.
    Meu corpo feito estilhaços
    Que os passantes pisavam
    Entre espanto e gargalhadas.






    POETAS
    (Sombras & espelhos)

    São tantos os poetas
    Quanto estrelas,
    Dispersos em bandeiras
    Pelo mundo.
    Eternos e profundos
    Pelas letras,
    Em digressões soberbas,
    Em dimensões sem fundo.
    São tantos os poetas
    Que o planeta,
    Em tinta de caneta,
    É resumo.
    Enorme rascunho
    Em línguas estrangeiras.
    A tradução perfeita
    Das emoções do mundo.






    MOSAICO
    (Sombras & espelhos)

    Em minha mão,
    Mil pedaços.
    Antigo quadro,
    Uma mesa,
    Alguém que come calado
    Com discrição ou tristeza.
    E lado a lado
    Na mais extrema destreza,
    Enfileirado
    Sob a antiga nobreza,
    Assenta-se o mosaico.
    Sob os meus pés, o passado
    Em um quadrado,
    Pintado
    Nesse retalho do tempo.
    Breve momento
    Guardado
    No mais antigo mosaico
    Preso à calçada,
    Ao tempo.






    SÓ EM TE AMAR
    (Sombras & espelhos)

    Só em teus lábios,
    Eu encontro meus gemidos.
    Só em meus gritos,
    Eu consigo te encontrar.
    Como enganar
    A emoção de estar aflito.
    Eu te preciso
    Como a noite, do luar.
    Só em teus passos,
    Eu caminho decidido.
    Surpreendido,
    Tento não justificar.
    Sem teus abraços,
    Os meus beijos são sofridos
    Como os feridos
    Que não podem se curar.
    Só em te amar
    É que eu encontro o sentido
    De tudo aquilo
    Que consigo imaginar.






    NUMERAL UM
    (Sombras & espelhos)

    Eu atribuo
    Minhas palavras ao poeta.
    Uma espera
    Numa tarde em jejum.
    Nós como dois,
    Dividimos.
    No que dera?
    Apenas um.
    Eu me situo
    Nas medidas de uma régua.
    A mais complexa
    Ou talvez a mais comum.
    Sou menos um,
    Minha conta se completa
    Com menos um.
    Eu me anulo
    Numa soma que me zera.
    Um dois que nega
    A existência de mais um.
    Sou incomum,
    Tabuada que ainda preza,
    Numeral um.






    CONTRACEPTIVO
    (Tríptico)

    Eu não sei se é o desespero
    que me leva à loucura
    quando o sexo estupra
    a minha alma,
    ou a calma
    que advém do meu tormento
    pelo tempo
    que passou em minha palma.
    Movimento anormal
    de penetração moral
    em sua saia,
    e no cheiro da indecência,
    feromônio da ciência
    em uma jaula.
    Uma fera excitante
    que no último instante, ofegante,
    cospe a vida
    no seu couro de borracha.
    Não há luta, nem corrida;
    há uma triste despedida
    de um suposto vencedor
    que foi fruto de um amor
    e se enforcou
    com a própria cauda.






    SONHOS
    (Tríptico)

    Os meus sonhos
    são apenas fragmentos de memória,
    pequenos focos de luz
    como cristais dispersados
    num caleidoscópio de pensamentos,
    distorções esdrúxulas da realidade.
    Rumores, amores e momentos,
    abertos numa gaveta destrancada.
    Minhas pálpebras fechadas
    num caixão de quase nada.
    Um quase definido como os sonhos
    que são versos que componho
    numa noite agitada.
    Movimento involuntário dos meus olhos,
    que entre risos, ainda choro
    por apenas acreditar sofrer.
    Entre cartas mal escritas e seladas,
    vem a calma ao chegar o amanhecer.
    Vem enfim, o esquecimento
    desse quase fingimento
    que é sonhar.






    EM DEMASIA
    (Tríptico)

    Eu sou demasiado triste,
    pelos versos que componho.
    Eu sou demasiado louco,
    pelo pouco
    que proponho.
    Não deveria o mundo ser assim,
    em demasia.
    Talvez não seja o mundo,
    seja enfim,
    minha poesia
    Demasiada em meu tédio,
    sem remédio,
    em grafia;
    em longas noites mal dormidas;
    nos insultos
    que eu ouvia.
    Não caberia em minha mão,
    toda a visão
    que em mim cabia.
    Eu sou demasiado em tudo,
    que ironia,
    demasiado em meu luto
    por ser fruto
    de utopia.
    Em demasia são os dias
    que me escapam entre os dedos
    como uma teia
    que é lânguida e esguia.
    O mais sublime pensamento
    que perde tempo
    em demasia.
    Demasiado, meu tormento,
    pelo tanto
    que eu não via.
    Demasiadamente eterno,
    meu inferno em agonia.
    Em demasia sou
    quem sou,
    um astronauta que acordou
    num mundo estranho
    em demasia.






    DISLATE
    (tríptico)

    Talvez minhas palavras sejam tolas,
    minhas ações, inconseqüentes;
    as minhas brincadeiras, ironia;
    eu próprio seja falho e negligente.
    O meu discurso seja sátira;
    minha seriedade, uma piada.
    O meu humor seja mau gosto;
    o meu dislate, permanente.
    Meu riso entre dentes, atimia;
    a minha faina seja ociosa;
    meu pranto, uma lição jocosa
    e o jeito infantil, idiotia.
    Talvez a minha vida seja um fracasso;
    meus versos, um engodo imoral.
    Em epítome, sou um gracejo nefasto.
    Meu desejo, um esboço abnormal.






    TURGESCÊNCIA
    (Sob meus calcanhares)

    Eu sinto os teus cabelos
    entre meus dedos,
    teus lábios comprimidos
    ao meu desejo,
    o arfar de teu cansaço
    entre meus braços
    e ouço teus gemidos.
    Vejo teus olhos tolhidos
    fitar meu medo
    de não tê-la satisfeito ainda.
    Tenho todos os sentidos
    na extensão do meu leito.
    E no auge da turgescência,
    me torno uma larva imersa
    em teus fluidos.






    O RAMO
    (Sob meus calcanhares)

    Onde está minha alma,
    que não encontro?
    Onde está meu encanto,
    minha calma?
    São perguntas que faço,
    ainda em pranto,
    ao meu eu freudiano
    que me cala.
    Onde está este anjo
    que me fala?
    Um quebranto
    que minha mãe me pôs.
    Ouço a antiga canção
    que ela compôs
    em minha rede embalada.
    Vejo um ramo na árvore desfolhada,
    resistir ao vento,
    envergado.
    Nesse instante me sinto
    envergonhado
    pelo meu triste pranto.
    Minhas lágrimas
    são simplesmente água
    que faz falta ao ramo.






    O DIÁLOGO
    (Reticências desfeitas)

    - Dou-te a palavra
    para principiares o diálogo.
    - Fico muito grata
    por ceder-me o favor.
    És muito amável.
    Vou falar de amor,
    sentimento imensurável
    que é tão natural
    quanto o desabrochar da flor.
    - Já vou interpor.
    O que tu estás dizendo?
    O amor é um invento
    cultural e sem valor.
    - Estou espantada.
    És um homem insensível.
    O amor é indizível.
    É nosso maior legado.
    - É soma sem resultado.
    O amor não é normal.
    É estóico, irracional,
    nos mantêm aprisionados.
    - És um homem insuportável.
    Mas o que dizes é refutável.
    De que vale a liberdade,
    sem motivo para a saudade.
    - És uma eterna sonhadora.
    De que vale um sentimento
    que só nos provoca medo,
    fraqueza e sofrimento.
    - O amor é imortal.
    A mais pura poesia.
    Nos fere, é natural.
    Mas compensa com alegria.
    - É uma simples utopia.
    Inconstante, passageiro.
    Quem se entrega por inteiro,
    viverá em agonia.
    - Vou deixar por encerrado
    o nosso breve diálogo
    em tua cética pessoa.
    Mas eu sei
    não é à toa
    que nós dois somos casados.



    ELA
    (Quadrilátero)

    Ela me leva,
    me engana
    e ainda me desafia.
    Levou meu corpo
    para a cama,
    enquanto me distraía.
    Deu-me o fruto do pecado,
    enquanto Eva,
    e compensou com redenção,
    quando Maria.
    Em Joana D'arc
    foi Vitória,
    também rainha.
    Já foi de todos
    e só minha.
    Ela é pouco e é demais.
    Como Helena,
    ela foi guerra.
    Como Tereza,
    ela foi paz.






    INDECENTE
    (Quadrilátero)

    Não sou um cavaleiro imaginário,
    apenas um vassalo
    que caminha.
    Pela realidade,
    um escravo
    que tem a ilusão
    que é livre ainda.
    Não sou nenhum beato,
    nem um cão.
    Eu não uso sermão
    e nem batina.
    Meu rosto
    é palidez,
    enquanto expiro.
    Meu sexo
    sem estilo,
    estupidez.






    MUNDO FICTÍCIO
    (Pax-vóbis)

    Uma criança brincava
    Com a comida, na mesa.
    Corria de pés descalços,
    Sem ninguém a seu encalço,
    Pela ruazinha estreita.
    Não enxergava a sujeira,
    No seu mundo fictício,
    Do real desconhecido;
    Tudo era brincadeira.
    Contudo, era tão bonito
    Ver o mundo dr17;aquela maneira:
    Sem ter ódio,
    Ser ter vício,
    Sem sombra de sacrifício,
    Sem pecado
    E sem tristeza.






    SOMBRA DE NANQUIM
    (Pax-vóbis)

    Que a vida,
    Mesmo frágil, continue.
    Que perdure
    Meu amor, além de mim.
    Que não tenham fim,
    Meus passos pela rua.
    Que dissipe sob a lua,
    Minha sombra de nanquim.






    A PEQUENA Dr17;ARC
    (Olhos de guri)

    A guria
    não gostava de pia,
    de casinha ou fogão.
    Para ela,
    tudo era opressão.
    Ela ouvira
    sua mãe reclamar
    que a mulher tende a trabalhar
    só com água e sabão.
    Por que não
    brincaria de guerra,
    de doutora,
    de terra na mão?
    A guria,
    parecia antever
    que seu mundo seria
    uma doce ilusão.


    A SOMBRA
    (Olhos de guri)

    Minha sombra
    que se perde no escuro,
    salta o muro
    quando o sol
    no céu desponta.
    Se arrasta no chão duro,
    se encolhe,
    se estica,
    passa rente a dobradiça
    e se perde pela casa.
    Mas à noite,
    minha sombra cria asa,
    voa quando saio a rua.
    Pela luz que vem da lua,
    minha sombra me abraça.
    Me divirto e acho graça
    quando atravessa a fogueira.
    Minha sombra, não sou eu,
    mas é minha companheira.


    TAMBÉM SOU
    (Letras, ...)

    O louco
    é apenas mal ouvido.
    Seu riso,
    tenebrosa gargalhada.
    Sua fé,
    um constante, eu duvido.
    Sua mente,
    uma porta escancarada.
    Seu pedido de ajuda
    é um grito.
    Seu gemido incontido,
    uma dor.
    Seu amor,
    um abraço emotivo.
    Sem motivo,
    eis que louco
    também sou.


    A GRAÇA
    (Letras, ...)

    Deus me deu o fardo
    para eu achar pesado
    o termo ser livre.
    Deus me deu o espelho
    para ver se aceito
    esse meu rosto triste.
    Deus me deu o segredo
    para pensar, eu mesmo,
    o que é ser tolice.
    Deus me deu a culpa
    para eu pedir desculpa
    por qualquer deslize.
    Deus me deu a dor
    para eu sentir pavor
    do seu dedo em riste.
    Deus não me deu nada,
    eu que faço a graça
    crendo que ele existe.


    VERSÃO REFRATADA
    (Letras, ...)

    Quantas vezes eu tive
    que mergulhar no sorriso
    para fugir do abismo
    que é o existencialismo
    de mim mesmo.
    Quantos pueris desejos
    entre prosaicas conversas.
    Quando nada interessa,
    meu mundo me dá medo.
    Eu sou apenas ensejo
    que o acaso consagra.
    Uma versão refratada
    na ilusão do que vejo.
    Quando não me percebo,
    é sinal de que eu mesmo
    sou a soma do nada.


    QUEM SOU EU
    (De versos, ...)

    Sou um jovem ateu
    Que entra na igreja
    Para tomar cerveja
    E beber café.
    Desconheço a fé,
    Mesmo na ressaca.
    Rio quando a graça
    É de um milagre
    De ser eu, um padre
    Que toma conhaque
    Num cálice de vinho
    E vive sozinho
    Pensando que sonha
    Em ser um demônio
    Que se sente Deus,
    Ser o próprio Deus
    Se sentindo humano,
    Ser um santo insano
    A brincar de ateu.


    DESESPERANÇA
    (De versos, ...)

    Quem é essa
    Que me tira o sono,
    Que arrebata o dono
    De uma humilde casa?
    Quem é essa
    Louca, desvairada,
    Que ao seio me prende
    Sem saber se sente
    A dor que a outro causa?
    Lábios que procuram vida
    Carne apodrecida
    No envelhecimento.
    Quem é essa
    Que corrói por dentro
    Como um veneno
    Sem nenhum antídoto?
    Eu sou outro,
    Sou um homem dito,
    Dito morto
    Pela agonia.
    Quem é essa
    Musa e tirania,
    Mistura que havia
    Desde minha infância?
    Quem é essa
    Triste companhia?
    Talvez seja a morte,
    A desesperança.


    O MATUTO
    (Cálice)

    O matuto está triste,
    cabisbaixo e pensativo.
    Não encontra um só motivo
    para saber se existe.
    Tal canário sem alpiste,
    preso a uma velha gaiola,
    vendo longe a aurora,
    sem ter ânimo pra cantar.
    Com vontade de voar
    para longe, ao horizonte;
    a saudade o consome
    antes mesmo de partir.
    O matuto fica ali,
    a pensar no que seria
    sem a única companhia,
    a choupana em que vive.
    Tal amor só visto em versos,
    o matuto é regresso
    de um lugar que não existe.


    SEM CONDIÇÃO
    (Cálice)

    Seus ombros à amostra,
    me deixam insinuado.
    Seu corpo ainda agora,
    me deixa provocado.
    Seus seios contornados
    pela blusa,
    me fazem sinal da curva
    do seu corpo ondulado.
    Seu jeito comportado
    não me mantém à distância.
    Na sua tolerância,
    encontro o meu pecado.
    Seus olhos não perturbam minha paz,
    além do mais,
    recebem meu recado.
    Seu pare, deixa disso, mais cuidado,
    só fazem aumentar o meu querer.
    A dúvida faz crescer
    minha ilusão,
    que eu terei nas mãos
    a chance de fazê-la entender.
    Amar é mais que ter.
    É aceitar querer
    sem condição.


    CONVÉS
    (Cálice)

    Foste meu caminho sem regresso
    em um verso.
    Minha poesia mais bonita.
    Entre as estrelas,
    rabisquei um só desenho,
    o seu rosto,
    como eu bem queria.
    Foste a derradeira flor
    perdida no deserto.
    Em meu universo,
    um farol de guia.
    Arrancaste o aviso que dizia:
    r0;Uma saudader1;.
    O vazio da idade,
    preenchias.
    Foste o colorido
    de uma tela que eu pintava.
    A mão que segurava o meu filho.
    O espírito de um cético
    que chorava.
    A paz esperada
    por um homem aturdido.
    Foste o barco rijo
    que sustenta a onda em fúria.
    O pescador que nada
    à procura de si mesmo.
    Para mim,
    a mais incrível criatura.
    A doce loucura
    do desejo.
    Foste na verdade,
    o meu mundo.
    Hoje, na saudade,
    apenas és
    um velho convés
    com o qual afundo.


    GRAMATICAL
    (Cabaz)

    Só em letras imprimo minha alma.
    Mais do que texto
    sou contexto indecifrável.
    Meu sinônimo é antônimo de si mesmo.
    Um sujeito indefinido
    que é objeto de um erro
    gramatical.
    Entre modos e tempos,
    triste verbo
    que ecoa na forma nominal.
    Orações que são subordinadas
    aos meus vícios de linguagem.
    Um início em letras ordenadas
    e um fim
    numa expressão oral.


    AFLORA UM POETA
    (Cabaz)

    Assim se fez um poeta.
    Como talhe na madeira
    esculpi minha poesia.
    De uma maneira fria
    infundi minha alma no papel.
    Nas costas de um corcel
    cavalguei por entre versos;
    muitas vezes sem regresso,
    o poema, me tornei.
    De um sono despertei
    enquanto escrevia,
    da caneta então fluía
    as idéias que sonhei.
    Quem sabe se eu errei?
    Foram mais de trinta anos,
    foram tantos desenganos
    que poeta, me tornei.


    INGÊNITO
    (Cabaz)

    Seguir os passos
    a um lugar perdido na distância;
    entrar na dança
    de um ritual de acasalamento;
    sentir nas mãos
    o instintivo dom
    que vem de dentro;
    ouvir o som
    de vozes ecoadas;
    e nas entonações
    das poesias declamadas,
    revelar-se poeta.


    LIAME
    (Cabaz)

    Sou livro
    intitulado.
    Um desabafo.
    Sou todo
    em parte.
    Um lacre violado.
    Sou tudo
    num nada
    dissipado.
    És flor
    dissecada
    na mão aberta
    em palma.
    És colo e calma
    na casa onde cresci;
    moeda encontrada
    que perdi;
    o berço
    em que nasceu
    minh'alma.





    APELO À MISÉRIA

    Quem me dera, miséria,
    eu fosse parte
    de um baluarte de sonho e de quimera.
    Pela boca mantém-se assim o povo,
    a lavagem é a comida que a si, dera.
    Na vergonha de reconhecer-se porco,
    ter o rosto metido na sujeira,
    enlameado atrás de uma porteira
    seu anseio é mantido na espera.

    Quem me dera, miséria,
    eu me calasse
    e ocultasse o meu rosto na janela.
    Meus princípios mantêm-me assim exposto.
    Sou mau gosto travado na goela.
    Quem engole as palavras que eu digo
    traz de volta a vontade de lutar,
    elas tocam a ferida no umbigo
    que o conformismo já ia cicatrizar.

    Quem me dera, miséria,
    quem me dera,
    que de ti eu pudesse me livrar.


    PERSONAGENS INFANTIS

    Será que o lobo é tão mal.
    O lobo ama também.
    Ele protege os filhotes que tem.
    Caçar, para ele é natural.

    A chapeuzinho, talvez,
    quando crescer seja outra.
    Se torne uma megera
    que não gosta de criança
    e perca toda a esperança
    de voltar ao que era.

    O caçador, o herói tão valente
    que salvou a vovozinha,
    costuma matar friamente a fêmea,
    deixando a cria sozinha.
    Ele acabou sendo preso
    por caçar ilegalmente.

    A vovozinha morreu.
    Pois, a idade a levou.
    Mas, quantas vezes brigou com a vizinha da frente.
    Isso prova que a bondade e a maldade,
    na verdade, são apenas uma história diferente.


    O POEMA QUE EU DEIXEI DE ESCREVER

    O poema que eu deixei de escrever,
    Falaria de você,
    De nosso tempo,
    De angústia, de tormento,
    De alegria e de prazer.
    Iria contradizer
    Cada palavra
    Que as nossas falas
    Tinham pouco a dizer.

    O poema que eu deixei de escrever,
    Seria na verdade,
    Uma ameaça.
    Calaria minha boca,
    Qual mordaça.
    Não seria uma desgraça,
    Por não ser.
    Os meus versos,
    Talvez fossem sem querer,
    Uma ofensa
    A sua crença,
    Que eu acreditava
    Ter.

    O poema que eu deixei de escrever,
    Não seria
    De valia.
    Sem valia,
    O deixei de escrever.


    SEPULTAMENTO

    Os meus olhos pregados
    no infinito
    como os pregos nas tábuas
    cravejados,
    e de pontas viradas,
    redobrados,
    sustentados e fixos
    numa curva.
    No aconchego da madeira macia,
    minhas costas
    nos ossos da bacia
    consolam meu corpo
    tão curvado.
    Pelo tempo que tenho acumulado,
    a ferrugem do mundo
    me comeu,
    e a tampa que pregam
    me prendeu
    para sempre num rito consumado.
    Por debaixo da terra
    condenado
    a ser parte da mesma
    e não ser eu.


    CANTO DE SEREIA

    Como um canto de sereia
    de belíssima harmonia,
    letra correta, verdadeira poesia
    e melodia
    que eterniza nossa alma.
    Por onde anda
    a sereia encantada
    nas profundezas desse mar de ignorância?
    Letra incorreta com falta de concordância
    e melodia
    que nos faz perder a calma.
    Só na lembrança,
    o teu canto nos enleva
    na emoção que tua voz nos faz sentir
    e na saudade, o nosso coração desperta
    pra realidade,
    não há nada mais pra ouvir.


    PEDESTAL DE BARRO

    Revogo silêncio
    ante palavra e voz.
    Reato os nós
    que me prendem ao medo.
    Reavivo memórias
    em busca de segredos
    que já não interessam mais.
    Reclamo por paz
    em meio a intensa guerra.
    Replanto a erva
    que não nasce mais.
    Relato as dores
    de males e fome.
    Repito o meu nome,
    antes de dormir.
    Reato os laços
    que me prendem aqui,
    ao pedestal de barro.


    TORRE DE BABEL

    O juiz do supremo,
    Jeová,
    se irrita e sai do sério,
    quando seu filho Jesus
    vai à noite, ao cemitério.

    No boteco do Davi,
    onde quem manda
    é o Golias,
    não há funda,
    quem afunda
    na cachaça, é o Isaías.

    No salão do senhor Sansão,
    quem faz o cabelo
    é sua mulher Dalila.

    As mulheres de Salomão,
    o cafetão lá da vila,
    choram e sentem solidão
    quando estão de barriga.

    Lúcifer anda arrasado,
    o seu mundo virou trevas,
    por ter visto abraçados,
    Adão e a senhora Eva.

    Noé, o velho barqueiro,
    não gosta de animais.
    No entanto, adora um peixe-frito
    no barzinho lá do cais.

    Essa torre de Babel
    é o mundo em que vivemos,
    onde não há inocência.
    Se algum nome ou fato ofender,
    é mera coincidência.


    A MULHER DA MINHA VIDA

    A mulher da minha vida,
    Sempre é lida em meus versos,
    De uma forma ou de outra.
    É a sua voz que ecoa
    Reclamando meu regresso.
    É bem mais que uma amante,
    Que uma amiga e companheira.
    Necessária como a fonte
    No deserto de areia.
    A mulher da minha vida,
    Entre linhas abstratas,
    Põe em mim, doces palavras
    E expressão de alegria.
    A resumo em poesia,
    Tal qual em cartas,
    A saudade que nos mata
    Se envia.
    A mulher da minha vida
    É a graça
    Que um devoto em desgraça,
    Alcançaria.


    O LABIRINTO

    Pelas ruas infinitas,
    Não encontro meu destino.
    Endereço repentino;
    Então, me pára.
    Não é nada;
    Sigo em frente, o meu caminho.

    A mim mesmo, ainda minto:
    - Logo chegarei em casa.

    Em calçadas,
    Eu percorro o labirinto
    (Cruzamentos, sinais verdes e paradas).

    O suor não pára o tempo;
    Lágrimas, enxuga o vento;
    E um triste pensamento
    Não se afasta.

    A cidade, assim, se fecha em semelhança.
    A lembrança,
    À realidade, não se adapta.
    Eu confundo o momento
    E me perco no silêncio
    De um triste monumento
    Que me agrada.

    Minha calma é necessária
    Para espantar o medo,
    Desvendar todo o segredo
    Que o labirinto encerra.
    Os meus pés seguem por terra,
    Minha alma por promessa,
    O meu corpo por saudade.
    Edifícios, tais quais pedras,
    Alicerçam a cidade;
    Conduzindo minha mocidade
    Eterna,
    De encontro ao passado.
    Eu me torno um condenado
    Num presente adulterado,
    Que me enterra.

    Observo as vidraças
    Das janelas,
    Onde o sol ofusca a vista
    Com a luz que é minha guia
    Na escuridão tardia
    Do passado.

    Cada praça
    Me congraça,
    Tal um templo
    Erigido como um marco à memória.
    Cada uma conta a história
    De seu tempo,
    De sorriso e sofrimento,
    De conquistas e derrotas.

    Novamente, me encontro sem saída,
    Apesar de tanta via planejada.
    Já não reconheço nada
    Do que havia,
    Já não reconheço nada.

    Alimento meu silêncio,
    O tempo passa,
    Onde pombos batem asas
    Sem voar.
    Não consigo encontrar
    O meu caminho;
    O meu ninho
    Não encontro em meu lugar.
    Continuo a me enganar,
    Ainda minto,
    Preso a esse labirinto
    A me fechar.


    À DERIVA

    Posso até perder o brilho dos meus olhos,
    Mas jamais, deixar de ver tanta tristeza.
    No esbanjar de pratos sobre minha mesa,
    Vejo a fome refletida nos teus olhos.

    O que faço se estou preso ao sistema
    Onde a indiferença
    Sobrepõe a caridade,
    Onde a verdade
    É varrida
    Pra debaixo da mentira
    E onde a vida
    É um barco à deriva
    Sem ações de piedade?


    UM POUCO MAIS

    Percebo
    A minha vida esvaindo-se entre meus dedos
    Em minha mão aberta
    A dar adeus ao mundo
    Pela janela.
    A minha juventude
    Em quietude eterna,
    Silencia os meus dias.
    As velhas alegrias
    São lembranças tristes.
    Os sonhos não resistem
    Aos carinhos da morte.
    E que meu sono suporte
    Os meus pesadelos,
    Já que meus apelos
    Ao que me resta de força
    Não me sustenta.
    Talvez, o mundo não entenda
    Esses meus ais.
    Não tenho medo de morrer.
    Eu só queria era viver
    Um pouco mais.


    O GRANDE DIA

    Ai de nós se não fosse o profeta
    Para converter o nosso coração.
    Do contrário, Deus feriria a terra
    Com terrível maldição.

    Com o Senhor não há perdão.
    Seu grande e terrível dia
    Não será de alegria
    E sim de destruição.

    O poder de sua mão
    É extremamente acintoso.
    Deus é um ser ambicioso,
    Quer de todos,
    Atenção.

    Não importa a condição,
    Será imposto
    Sofrimento e desgosto
    Por qualquer contravenção.

    Deus não quer nos dá lição,
    Quer aniquilar a todos
    Pelo caráter odioso
    Que passou à criação.


    EPITÁFIO XIV

    Ela se aproxima
    Sorrateira e linda,
    Com seu manto escuro,
    Sua mão suada.
    Não nos pede nada,
    Mas nos toma tudo.
    Deixa então, de luto,
    A pessoa amada.

    Ela não se importa
    Com aquele que fica.
    Pois só se dedica
    Ao que se despede.
    Sorrateira, impede
    Que a gente viva.
    E sutil se infiltra
    Sob nossa pele.

    Ela só se afasta
    Quando mata a alma
    E deixa o corpo inerte.


    ETERNA SOLIDÃO

    O que eu tive na vida
    Além da data esquecida,
    Da dor no peito, contida,
    E da perdida ilusão?

    O que mantenho na mão,
    Já na forma cadavérica,
    Senão,
    A luta sem trégua
    Com os germes que a terra
    Colocou em meu caixão?

    Os meus feitos,
    Foram em vão.
    Meus defeitos,
    Exaltados.
    Não sou de Deus nem do Diabo.
    Sou um louco condenado
    A eterna solidão.


    ESPANTALHO MORIBUNDO

    Minha alma sempre está
    Num silêncio tão profundo,
    Que eu chego a duvidar
    Que ainda estou no mundo.

    Espantalho moribundo,
    Onde a morte vem pousar.
    Talvez para lhe falar:
    Sinto muito! Sinto muito!

    Num milésimo de segundo,
    Volta o corpo a respirar.
    Espantalho vagabundo,
    Fecha os braços para o mar,
    Abre os olhos para o mundo.


    FRUTO SEM CASCA

    Espalhando letras
    Sobre velhas páginas,
    Semeei palavras
    Que insatisfeitas
    Deram-me em colheita
    Uma grande safra
    De um fruto sem casca,
    A minha tristeza.

    Uma fruta fresca,
    Presa pela boca
    Em que uma ou outra
    Tenta mordiscar,
    Murcha sem parar;
    Se tornando feia,
    Seca na areia
    Quando o vento dá.

    Versos pelo ar,
    Lágrimas e poeira,
    Solidão na mesa
    Onde o fruto está
    Exposto, sem par,
    Sem mostrar beleza,
    É minha tristeza
    A me alimentar.


    HOMENS DE FUMAÇA

    No arrastar de minhas sandálias
    Pela casa,
    Tenho as lembranças arranhadas
    E esquecidas.
    Por onde andam as conversas conduzidas
    Pelos homens de fumaça?

    Se desfizeram com o tempo,
    Nas costas de um tênue vento,
    Pela janela escancarada.

    O velho barco na distância, ainda aguarda
    Pela tripulação dispersa,
    Numa espera
    Que parece eternizada.

    Em meio a tralhas,
    Depuseram suas velas.
    Em meio a elas,
    O seu capitão se apaga.


    O FRACASSO

    Eu sei que a vida me leva em trapos.
    Caldeirões de barro
    De bruxos modernos.
    Favelas de inferno,
    Diversos buracos.

    São armas de ferro.
    São balas de aço.
    Sou eu, o fracasso
    De um programa sem sucesso.

    Eu sei que a morte me olha de perto;
    Que chego a sentir o seu frio abraço.
    Eu fumo, eu prego
    Minha mão no maço
    De notas sem eco.

    São barras de ferro.
    Algemas de aço.
    Eu sei que sou o fracasso
    De um programa sem sucesso.

    Eu sei que caminham lado a lado,
    O errado e o certo,
    A ira de Deus
    E a fama do diabo,
    Senhores e servos,
    Patrões e empregados,
    Progresso e atraso.

    São os mãos-de-ferro
    Em torres de aço.
    Sendo eu, o fracasso
    De um programa sem sucesso.


    OLHOS DE AZULÃO

    O que busca essa mulher
    Pela qual minto,
    Senão
    A mesma solidão
    Que sinto
    Quando longe de seus olhos de azulão?

    Os mesmos olhos
    Que me olham da gaiola
    Quando eu abro a porta
    E eles vêem a imensidão.


    SE FOSSEM SÃOS

    A rima
    É mera aflição
    Dos versos que me espelham
    Naquilo que são.

    De forma nenhuma dirão
    Do que são feitos.

    Meus versos
    Seriam perfeitos
    Se fossem sãos.
    Mas nada são,
    Senão
    Defeitos.


    QUANDO CHORO

    Onde andam os meus olhos
    Quando choro,
    Se não consigo encontrar
    As minhas lágrimas?
    Nas migalhas,
    Além de meus remorsos?
    Nos meus ossos,
    Aquém de minha alma?


    A FANTASIA

    Amo você
    Com o mesmo ardor da juventude,
    Na quietude
    De minha atual idade.
    Amo-a na ausência
    Como num dia de saudade,
    Detenho-me a cada ínfima lembrança,
    Com a mesma paz
    Que traz
    Aquela esperança
    Após uma guerra.
    Amo-a em terra
    Com a cabeça pelas nuvens.
    Amo atitudes
    Que jamais seriam minhas,
    Como entre linhas,
    Leio uma poesia.
    Amo como se ama o alvorecer
    De cada dia,
    Como o sorriso
    Na inocente alegria
    De um bebê.
    E ter você,
    Ainda parece utopia.
    Mas, quis a vida
    Que eu vivesse a fantasia
    De meu ser,
    Que é para sempre,
    Você.


    MINHA GERAÇÃO

    Essa amargura
    Que me faz um homem rude,
    É mera atitude
    De defesa.
    Odeio a pobreza
    Que aos pés de Deus se ilude;
    Enquanto a juventude,
    Nada almeja.
    Desprezo a mania de grandeza
    Que o rico tem com tudo.
    Não sou um carrancudo
    Por frieza;
    Somente faço uso
    Da tristeza
    De um sisudo,
    Por ser fruto
    De uma geração que aceita.


    SONETO DA VITRINE
    (Sombras & espelhos)

    A vidraça estilhaçada,
    Não desfaz a minha imagem,
    Não subtrai da cidade,
    A luz do sol ofuscada.
    De pé, fiquei na calçada
    Com minha mão estendida.
    Exorcizei minha vida
    Na pedra que arremessara.
    Por um instante, escutara
    O som de ossos quebrados
    Da montra fragmentada.
    Meu corpo feito estilhaços
    Que os passantes pisavam
    Entre espanto e gargalhadas.


    POETAS
    (Sombras & espelhos)

    São tantos os poetas
    Quanto estrelas,
    Dispersos em bandeiras
    Pelo mundo.
    Eternos e profundos
    Pelas letras,
    Em digressões soberbas,
    Em dimensões sem fundo.
    São tantos os poetas
    Que o planeta,
    Em tinta de caneta,
    É resumo.
    Enorme rascunho
    Em línguas estrangeiras.
    A tradução perfeita
    Das emoções do mundo.


    MOSAICO
    (Sombras & espelhos)

    Em minha mão,
    Mil pedaços.
    Antigo quadro,
    Uma mesa,
    Alguém que come calado
    Com discrição ou tristeza.
    E lado a lado
    Na mais extrema destreza,
    Enfileirado
    Sob a antiga nobreza,
    Assenta-se o mosaico.
    Sob os meus pés, o passado
    Em um quadrado,
    Pintado
    Nesse retalho do tempo.
    Breve momento
    Guardado
    No mais antigo mosaico
    Preso à calçada,
    Ao tempo.


    SÓ EM TE AMAR
    (Sombras & espelhos)

    Só em teus lábios,
    Eu encontro meus gemidos.
    Só em meus gritos,
    Eu consigo te encontrar.
    Como enganar
    A emoção de estar aflito.
    Eu te preciso
    Como a noite, do luar.
    Só em teus passos,
    Eu caminho decidido.
    Surpreendido,
    Tento não justificar.
    Sem teus abraços,
    Os meus beijos são sofridos
    Como os feridos
    Que não podem se curar.
    Só em te amar
    É que eu encontro o sentido
    De tudo aquilo
    Que consigo imaginar.


    NUMERAL UM
    (Sombras & espelhos)

    Eu atribuo
    Minhas palavras ao poeta.
    Uma espera
    Numa tarde em jejum.
    Nós como dois,
    Dividimos.
    No que dera?
    Apenas um.
    Eu me situo
    Nas medidas de uma régua.
    A mais complexa
    Ou talvez a mais comum.
    Sou menos um,
    Minha conta se completa
    Com menos um.
    Eu me anulo
    Numa soma que me zera.
    Um dois que nega
    A existência de mais um.
    Sou incomum,
    Tabuada que ainda preza,
    Numeral um.


    CONTRACEPTIVO
    (Tríptico)

    Eu não sei se é o desespero
    que me leva à loucura
    quando o sexo estupra
    a minha alma,
    ou a calma
    que advém do meu tormento
    pelo tempo
    que passou em minha palma.
    Movimento anormal
    de penetração moral
    em sua saia,
    e no cheiro da indecência,
    feromônio da ciência
    em uma jaula.
    Uma fera excitante
    que no último instante, ofegante,
    cospe a vida
    no seu couro de borracha.
    Não há luta, nem corrida;
    há uma triste despedida
    de um suposto vencedor
    que foi fruto de um amor
    e se enforcou
    com a própria cauda.


    SONHOS
    (Tríptico)

    Os meus sonhos
    são apenas fragmentos de memória,
    pequenos focos de luz
    como cristais dispersados
    num caleidoscópio de pensamentos,
    distorções esdrúxulas da realidade.
    Rumores, amores e momentos,
    abertos numa gaveta destrancada.
    Minhas pálpebras fechadas
    num caixão de quase nada.
    Um quase definido como os sonhos
    que são versos que componho
    numa noite agitada.
    Movimento involuntário dos meus olhos,
    que entre risos, ainda choro
    por apenas acreditar sofrer.
    Entre cartas mal escritas e seladas,
    vem a calma ao chegar o amanhecer.
    Vem enfim, o esquecimento
    desse quase fingimento
    que é sonhar.


    EM DEMASIA
    (Tríptico)

    Eu sou demasiado triste,
    pelos versos que componho.
    Eu sou demasiado louco,
    pelo pouco
    que proponho.
    Não deveria o mundo ser assim,
    em demasia.
    Talvez não seja o mundo,
    seja enfim,
    minha poesia
    Demasiada em meu tédio,
    sem remédio,
    em grafia;
    em longas noites mal dormidas;
    nos insultos
    que eu ouvia.
    Não caberia em minha mão,
    toda a visão
    que em mim cabia.
    Eu sou demasiado em tudo,
    que ironia,
    demasiado em meu luto
    por ser fruto
    de utopia.
    Em demasia são os dias
    que me escapam entre os dedos
    como uma teia
    que é lânguida e esguia.
    O mais sublime pensamento
    que perde tempo
    em demasia.
    Demasiado, meu tormento,
    pelo tanto
    que eu não via.
    Demasiadamente eterno,
    meu inferno em agonia.
    Em demasia sou
    quem sou,
    um astronauta que acordou
    num mundo estranho
    em demasia.


    DISLATE
    (tríptico)

    Talvez minhas palavras sejam tolas,
    minhas ações, inconseqüentes;
    as minhas brincadeiras, ironia;
    eu próprio seja falho e negligente.
    O meu discurso seja sátira;
    minha seriedade, uma piada.
    O meu humor seja mau gosto;
    o meu dislate, permanente.
    Meu riso entre dentes, atimia;
    a minha faina seja ociosa;
    meu pranto, uma lição jocosa
    e o jeito infantil, idiotia.
    Talvez a minha vida seja um fracasso;
    meus versos, um engodo imoral.
    Em epítome, sou um gracejo nefasto.
    Meu desejo, um esboço abnormal.


    TURGESCÊNCIA
    (Sob meus calcanhares)

    Eu sinto os teus cabelos
    entre meus dedos,
    teus lábios comprimidos
    ao meu desejo,
    o arfar de teu cansaço
    entre meus braços
    e ouço teus gemidos.
    Vejo teus olhos tolhidos
    fitar meu medo
    de não tê-la satisfeito ainda.
    Tenho todos os sentidos
    na extensão do meu leito.
    E no auge da turgescência,
    me torno uma larva imersa
    em teus fluidos.


    O RAMO
    (Sob meus calcanhares)

    Onde está minha alma,
    que não encontro?
    Onde está meu encanto,
    minha calma?
    São perguntas que faço,
    ainda em pranto,
    ao meu eu freudiano
    que me cala.
    Onde está este anjo
    que me fala?
    Um quebranto
    que minha mãe me pôs.
    Ouço a antiga canção
    que ela compôs
    em minha rede embalada.
    Vejo um ramo na árvore desfolhada,
    resistir ao vento,
    envergado.
    Nesse instante me sinto
    envergonhado
    pelo meu triste pranto.
    Minhas lágrimas
    são simplesmente água
    que faz falta ao ramo.


    O DIÁLOGO
    (Reticências desfeitas)

    - Dou-te a palavra
    para principiares o diálogo.
    - Fico muito grata
    por ceder-me o favor.
    És muito amável.
    Vou falar de amor,
    sentimento imensurável
    que é tão natural
    quanto o desabrochar da flor.
    - Já vou interpor.
    O que tu estás dizendo?
    O amor é um invento
    cultural e sem valor.
    - Estou espantada.
    És um homem insensível.
    O amor é indizível.
    É nosso maior legado.
    - É soma sem resultado.
    O amor não é normal.
    É estóico, irracional,
    nos mantêm aprisionados.
    - És um homem insuportável.
    Mas o que dizes é refutável.
    De que vale a liberdade,
    sem motivo para a saudade.
    - És uma eterna sonhadora.
    De que vale um sentimento
    que só nos provoca medo,
    fraqueza e sofrimento.
    - O amor é imortal.
    A mais pura poesia.
    Nos fere, é natural.
    Mas compensa com alegria.
    - É uma simples utopia.
    Inconstante, passageiro.
    Quem se entrega por inteiro,
    viverá em agonia.
    - Vou deixar por encerrado
    o nosso breve diálogo
    em tua cética pessoa.
    Mas eu sei
    não é à toa
    que nós dois somos casados.


    ELA
    (Quadrilátero)

    Ela me leva,
    me engana
    e ainda me desafia.
    Levou meu corpo
    para a cama,
    enquanto me distraía.
    Deu-me o fruto do pecado,
    enquanto Eva,
    e compensou com redenção,
    quando Maria.
    Em Joana D'arc
    foi Vitória,
    também rainha.
    Já foi de todos
    e só minha.
    Ela é pouco e é demais.
    Como Helena,
    ela foi guerra.
    Como Tereza,
    ela foi paz.


    INDECENTE
    (Quadrilátero)

    Não sou um cavaleiro imaginário,
    apenas um vassalo
    que caminha.
    Pela realidade,
    um escravo
    que tem a ilusão
    que é livre ainda.
    Não sou nenhum beato,
    nem um cão.
    Eu não uso sermão
    e nem batina.
    Meu rosto
    é palidez,
    enquanto expiro.
    Meu sexo
    sem estilo,
    estupidez.


    MUNDO FICTÍCIO
    (Pax-vóbis)

    Uma criança brincava
    Com a comida, na mesa.
    Corria de pés descalços,
    Sem ninguém a seu encalço,
    Pela ruazinha estreita.
    Não enxergava a sujeira,
    No seu mundo fictício,
    Do real desconhecido;
    Tudo era brincadeira.
    Contudo, era tão bonito
    Ver o mundo dr17;aquela maneira:
    Sem ter ódio,
    Ser ter vício,
    Sem sombra de sacrifício,
    Sem pecado
    E sem tristeza.


    SOMBRA DE NANQUIM
    (Pax-vóbis)

    Que a vida,
    Mesmo frágil, continue.
    Que perdure
    Meu amor, além de mim.
    Que não tenham fim,
    Meus passos pela rua.
    Que dissipe sob a lua,
    Minha sombra de nanquim.


    A PEQUENA Dr17;ARC
    (Olhos de guri)

    A guria
    não gostava de pia,
    de casinha ou fogão.
    Para ela,
    tudo era opressão.
    Ela ouvira
    sua mãe reclamar
    que a mulher tende a trabalhar
    só com água e sabão.
    Por que não
    brincaria de guerra,
    de doutora,
    de terra na mão?
    A guria,
    parecia antever
    que seu mundo seria
    uma doce ilusão.


    A SOMBRA
    (Olhos de guri)

    Minha sombra
    que se perde no escuro,
    salta o muro
    quando o sol
    no céu desponta.
    Se arrasta no chão duro,
    se encolhe,
    se estica,
    passa rente a dobradiça
    e se perde pela casa.
    Mas à noite,
    minha sombra cria asa,
    voa quando saio a rua.
    Pela luz que vem da lua,
    minha sombra me abraça.
    Me divirto e acho graça
    quando atravessa a fogueira.
    Minha sombra, não sou eu,
    mas é minha companheira.


    TAMBÉM SOU
    (Letras, ...)

    O louco
    é apenas mal ouvido.
    Seu riso,
    tenebrosa gargalhada.
    Sua fé,
    um constante, eu duvido.
    Sua mente,
    uma porta escancarada.
    Seu pedido de ajuda
    é um grito.
    Seu gemido incontido,
    uma dor.
    Seu amor,
    um abraço emotivo.
    Sem motivo,
    eis que louco
    também sou.


    A GRAÇA
    (Letras, ...)

    Deus me deu o fardo
    para eu achar pesado
    o termo ser livre.
    Deus me deu o espelho
    para ver se aceito
    esse meu rosto triste.
    Deus me deu o segredo
    para pensar, eu mesmo,
    o que é ser tolice.
    Deus me deu a culpa
    para eu pedir desculpa
    por qualquer deslize.
    Deus me deu a dor
    para eu sentir pavor
    do seu dedo em riste.
    Deus não me deu nada,
    eu que faço a graça
    crendo que ele existe.


    VERSÃO REFRATADA
    (Letras, ...)

    Quantas vezes eu tive
    que mergulhar no sorriso
    para fugir do abismo
    que é o existencialismo
    de mim mesmo.
    Quantos pueris desejos
    entre prosaicas conversas.
    Quando nada interessa,
    meu mundo me dá medo.
    Eu sou apenas ensejo
    que o acaso consagra.
    Uma versão refratada
    na ilusão do que vejo.
    Quando não me percebo,
    é sinal de que eu mesmo
    sou a soma do nada.


    QUEM SOU EU
    (De versos, ...)

    Sou um jovem ateu
    Que entra na igreja
    Para tomar cerveja
    E beber café.
    Desconheço a fé,
    Mesmo na ressaca.
    Rio quando a graça
    É de um milagre
    De ser eu, um padre
    Que toma conhaque
    Num cálice de vinho
    E vive sozinho
    Pensando que sonha
    Em ser um demônio
    Que se sente Deus,
    Ser o próprio Deus
    Se sentindo humano,
    Ser um santo insano
    A brincar de ateu.


    DESESPERANÇA
    (De versos, ...)

    Quem é essa
    Que me tira o sono,
    Que arrebata o dono
    De uma humilde casa?
    Quem é essa
    Louca, desvairada,
    Que ao seio me prende
    Sem saber se sente
    A dor que a outro causa?
    Lábios que procuram vida
    Carne apodrecida
    No envelhecimento.
    Quem é essa
    Que corrói por dentro
    Como um veneno
    Sem nenhum antídoto?
    Eu sou outro,
    Sou um homem dito,
    Dito morto
    Pela agonia.
    Quem é essa
    Musa e tirania,
    Mistura que havia
    Desde minha infância?
    Quem é essa
    Triste companhia?
    Talvez seja a morte,
    A desesperança.


    O MATUTO
    (Cálice)

    O matuto está triste,
    cabisbaixo e pensativo.
    Não encontra um só motivo
    para saber se existe.
    Tal canário sem alpiste,
    preso a uma velha gaiola,
    vendo longe a aurora,
    sem ter ânimo pra cantar.
    Com vontade de voar
    para longe, ao horizonte;
    a saudade o consome
    antes mesmo de partir.
    O matuto fica ali,
    a pensar no que seria
    sem a única companhia,
    a choupana em que vive.
    Tal amor só visto em versos,
    o matuto é regresso
    de um lugar que não existe.


    SEM CONDIÇÃO
    (Cálice)

    Seus ombros à amostra,
    me deixam insinuado.
    Seu corpo ainda agora,
    me deixa provocado.
    Seus seios contornados
    pela blusa,
    me fazem sinal da curva
    do seu corpo ondulado.
    Seu jeito comportado
    não me mantém à distância.
    Na sua tolerância,
    encontro o meu pecado.
    Seus olhos não perturbam minha paz,
    além do mais,
    recebem meu recado.
    Seu pare, deixa disso, mais cuidado,
    só fazem aumentar o meu querer.
    A dúvida faz crescer
    minha ilusão,
    que eu terei nas mãos
    a chance de fazê-la entender.
    Amar é mais que ter.
    É aceitar querer
    sem condição.


    CONVÉS
    (Cálice)

    Foste meu caminho sem regresso
    em um verso.
    Minha poesia mais bonita.
    Entre as estrelas,
    rabisquei um só desenho,
    o seu rosto,
    como eu bem queria.
    Foste a derradeira flor
    perdida no deserto.
    Em meu universo,
    um farol de guia.
    Arrancaste o aviso que dizia:
    r0;Uma saudader1;.
    O vazio da idade,
    preenchias.
    Foste o colorido
    de uma tela que eu pintava.
    A mão que segurava o meu filho.
    O espírito de um cético
    que chorava.
    A paz esperada
    por um homem aturdido.
    Foste o barco rijo
    que sustenta a onda em fúria.
    O pescador que nada
    à procura de si mesmo.
    Para mim,
    a mais incrível criatura.
    A doce loucura
    do desejo.
    Foste na verdade,
    o meu mundo.
    Hoje, na saudade,
    apenas és
    um velho convés
    com o qual afundo.


    GRAMATICAL
    (Cabaz)

    Só em letras imprimo minha alma.
    Mais do que texto
    sou contexto indecifrável.
    Meu sinônimo é antônimo de si mesmo.
    Um sujeito indefinido
    que é objeto de um erro
    gramatical.
    Entre modos e tempos,
    triste verbo
    que ecoa na forma nominal.
    Orações que são subordinadas
    aos meus vícios de linguagem.
    Um início em letras ordenadas
    e um fim
    numa expressão oral.


    AFLORA UM POETA
    (Cabaz)

    Assim se fez um poeta.
    Como talhe na madeira
    esculpi minha poesia.
    De uma maneira fria
    infundi minha alma no papel.
    Nas costas de um corcel
    cavalguei por entre versos;
    muitas vezes sem regresso,
    o poema, me tornei.
    De um sono despertei
    enquanto escrevia,
    da caneta então fluía
    as idéias que sonhei.
    Quem sabe se eu errei?
    Foram mais de trinta anos,
    foram tantos desenganos
    que poeta, me tornei.


    INGÊNITO
    (Cabaz)

    Seguir os passos
    a um lugar perdido na distância;
    entrar na dança
    de um ritual de acasalamento;
    sentir nas mãos
    o instintivo dom
    que vem de dentro;
    ouvir o som
    de vozes ecoadas;
    e nas entonações
    das poesias declamadas,
    revelar-se poeta.


    LIAME
    (Cabaz)

    Sou livro
    intitulado.
    Um desabafo.
    Sou todo
    em parte.
    Um lacre violado.
    Sou tudo
    num nada
    dissipado.
    És flor
    dissecada
    na mão aberta
    em palma.
    És colo e calma
    na casa onde cresci;
    moeda encontrada
    que perdi;
    o berço
    em que nasceu
    minh'alma. Twisted Evil

    Leonardo Schabbach
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    Re: Poesias selecionadas

    Mensagem por Leonardo Schabbach em Seg Jan 03, 2011 1:23 pm

    Li o primeiro poema e gostei bastante. Depois leio os outros. Mas não aconselharia sair assim postando já um monte de textos de uma só vez sem antes dar uma conversada com pessoal do fórum, conhecer todo mundo. Geralmente isso deixa as pessoas mais interessadas na leitura, afinal, há uma troca de experiências, informações e etc...


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